Fim de semana com tempo ruim, programação festiva pior ainda. O jeito é ficar em casa...
Fazendo o quê?
aaam...
Olha aí...
Não foram os gritos e os tiros que rasgaram meus ouvidos dessa vez, o sol se encarregou de me acordar no mesmo buraco das noites passadas, no meu bolso ainda estava a foto de Henri, beijei e entreguei-a novamente ao bolso com botão. A última carta que consegui receber de minha esposa durante a guerra foi há dois meses. Henri já estava na escola, e junto com a carta da mãe recebi um pequeno bilhete de Henri. Meu garoto já sabia escrever! Nunca chorei tanto de saudade da minha família. A minha criança tinha dado um grande passo, e eu não estava lá pra ajudá-lo a compor seus primeiros rabiscos. Maldita guerra!
Não há muito que pensar, peguei a arma e fui para meu posto perto de uma casa que já estava com boa parte demolida, era rotina ficar ouvindo os soldados gritarem para saber como estava a visualização, o silêncio por incrível que pareça me cheirava mal, em guerra o silêncio é um mal sinal, a qualquer hora alguma bomba pode estourar sua cabeça.
No caminho até o meu posto me lembrei das cenas horripilantes do combate anterior. Fomos treinados para não enxergar a morte à nossa volta, e sim enxergar apenas o inimigo e destruí-lo. Porém, ontem senti que fosse o último dia de minha vida, e tive tanto medo, foi uma batalha difícil de ser vencida, perdi grandes companheiros de front, mas alcançamos o nosso objetivo, aniquilando a tropa inimiga.
A morte é um mistério que só quem morre pode desvendar, morrer pode ser uma arte ou uma fatalidade, mais matar com tiros uma alma é a sensação mais fria que já vivi, carregar equipamentos com bombas e arrasar cidades inteiras em um segundo e matar pessoas que teriam uma vida inteira pela frente...
Já perdi a conta de quantos eu matei, tenho medo de quando forem me julgar se é isso realmente que se esconde neste mistério. Já matei para não morrer mais isso não justifica, a minha hora ainda vai chegar com uma bomba ou um tiro de espingarda.
Pego o meu cantil e jogo um pouco de água no rosto. Está muito frio, mas a água sempre me ajudou a afastar esses pensamentos de morte. Vou para perto de Gérard, o francês que se juntou à nossa tropa, dono de uma lábia infalível com as enfermeiras, e uma mira inacreditável, herdada do pai, combatente da primeira guerra, hoje um veterano cheio de cicatrizes. Incrível como até depois de tantas horas de horror ele ainda tem humor pra contar suas piadinhas infames.
Gérard vivia cuspindo, olhando para as enfermeiras e querendo nos aliviar do cheiro horrível no ar e do batuque dos ouvidos, não tive tempo de escutar sua última piada, sua fala foi interrompida por uma bala certeira na cabeça que me lavou de sangue, tive só o tempo de tocar a sirene enquanto o via cair morro abaixo rolando feito pedra.
Enquanto o corpo rolava e a graça sumia os aviões faziam sua missão fuzilando todos os nossos companheiros de guerra que só paravam de atirar quando caiam sobre suas armas, descansados de toda essa ignorância humana. Corri e me atirei sobre as pedras que me protegiam da chuva de balas.
Senti uma dor muito forte no peito, no lugar exato onde estava a foto de Henri. Minhas mãos tremiam, mas consegui pegar a foto de meu filho, agora suja de sangue e com furo de bala. Percebi que não me restava muito tempo, nunca mais veria o sorriso da minha criança novamente.
Uma bala, milhões de direções e o meu peito foi escolhido como alvo da enxurrada.
Um peito que lutou sem ao menos saber o porquê, na esperança de ver sempre Henri crescer e jamais ter que enfrentar uma guerra. Que jamais seus olhos sejam guiados para matar e que suas mãos nunca disparem o gatilho de uma arma. Esse é o meu último desejo.
(obeéssi: Texto elaborado junto com o Tiago do Forrest Vox , via MSN. Também é dedicado a ele. E Tiago... molto grazie! ehuehueheueu xD)
Tchau, creanssas aproveitem o fim de semana. Até qualquer dia desses. (:












